A governança qualificada reposiciona o comércio local como vetor de desenvolvimento econômico e inclusão produtiva.
Por REDAÇÃO do DMHC Lifestyle Magazine | Siga nas Redes Sociais
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Introdução: A redescoberta do mercado como território estratégico
Por décadas, os mercados públicos brasileiros foram tratados pela gestão urbana como problemas de saúde pública, segurança e informalidade — espaços a serem controlados, quando não removidos, do centro das cidades. Essa visão, herdeira de uma tradição higienista do século XIX, ignorou sistematicamente o papel estrutural que esses equipamentos desempenham na economia local, na identidade cultural e na coesão social dos territórios.
Uma mudança silenciosa, porém substantiva, vem ocorrendo no planejamento urbano brasileiro contemporâneo. Governos federal, estaduais e municipais, em articulação com o Sebrae e a sociedade civil, passaram a reinterpretar os mercados populares — feiras livres, mercados municipais, centros de abastecimento — como infraestrutura econômica estratégica .
Não por acaso. Dados do Sebrae indicam que, somente no primeiro semestre de 2025, foram abertos mais de 29 mil pequenos negócios do setor de minimercados, mercearias e armazéns no país — o equivalente a 162 CNPJs registrados por dia. Micro e pequenas empresas respondem por mais de 60% das contratações no setor .
O movimento, contudo, vai além da abertura de novos pontos comerciais. Trata-se de uma reconfiguração da governança desses espaços: da gestão reativa (fiscalização, coerção) para a gestão estratégica (planejamento, integração, fomento).
Esta reportagem investiga como a governança qualificada está reposicionando os mercados populares como vetores de desenvolvimento econômico e inclusão produtiva, com base em evidências nacionais e no estudo de caso paradigmático da revitalização do Mercado de São Brás, em Belém (PA).
O Programa Mercado do Povo: a política federal que reconhece a centralidade dos mercados
O principal marco dessa mudança de paradigma foi o lançamento, em outubro de 2025, do Programa Mercado do Povo, pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) .
A iniciativa prevê a implantação de 136 mercados municipais modulares em todo o território nacional, priorizando municípios com maior vulnerabilidade socioeconômica e déficits históricos de infraestrutura .
O programa parte de um princípio simples, mas poderoso: sem infraestrutura digna, pequenos produtores não acessam mercados, não agregam valor e permanecem presos a ciclos de baixa renda. Os mercados modulares — estruturas pré-fabricadas com lojas, lanchonetes, escritórios, sanitários e áreas de circulação — representam uma solução de infraestrutura econômica de proximidade, adaptada às realidades locais .
Os investimentos variam conforme o porte do município: de R$ 5,2 milhões para cidades de até 20 mil habitantes a R$ 20,5 milhões para aquelas com população acima de 100 mil habitantes .
O secretário Nacional de Políticas de Desenvolvimento Regional e Territorial do MIDR, Daniel Fortunato, resume a lógica da iniciativa: "O produtor passará a ter um local limpinho, novo e moderno para vender o seu produto. Isso é bom para gerar emprego e renda e cumprir os objetivos da nossa Política Nacional de Desenvolvimento Regional (PNDR), que é trabalhar diretamente na redução das desigualdades" .
O Mercado do Povo não é uma política isolada. Ele integra uma estratégia mais ampla do governo federal — as Rotas de Integração Nacional — que, em 2025, passou a reunir 13 rotas produtivas e 79 polos, abrangendo cadeias como açaí, cacau, mel, pescado, mandioca, fruticultura, biodiversidade, moda e tecnologia da informação .
Estudo de caso paradigmático: a revitalização do Mercado de São Brás (Belém)
Se o Programa Mercado do Povo representa a política federal em escala nacional, a revitalização do Mercado de São Brás, em Belém (PA), inaugurada em outubro de 2025, é o caso mais emblemático da nova abordagem de governança no nível local .
Construído em 1911, durante o ciclo da borracha, o mercado é um marco da Belle Époque na capital paraense e patrimônio histórico da cidade. Após anos de degradação, recebeu um investimento de cerca de R$ 150 milhões em reforma e reabriu com mais de 80 negócios espalhados por três níveis, incluindo polo gastronômico, feira, praça de alimentação e lojas .
O que torna o caso paradigmático, contudo, não é apenas o volume de recursos aplicados na infraestrutura. É o desenho da governança que acompanhou a revitalização.
Curadoria qualificada e diversificação dos negócios
A requalificação do Mercado de São Brás contou com curadoria gastronômica do chef Paulo Anijar, do restaurante Santa Chicória, garantindo que o polo alimentício tivesse padrão de qualidade e identidade regional. Mas o diferencial foi a inclusão de pequenos empreendedores locais — muitos deles oriundos do comércio digital e de feiras populares — no novo ecossistema do mercado .
Resultados concretos em geração de renda e emprego
Os números iniciais são impressionantes. A artesã Luciana Tavares, que vendia exclusivamente pelo Instagram, inaugurou sua primeira loja física no mercado revitalizado e viu o faturamento crescer entre 80% e 100% na primeira semana de funcionamento. Seu negócio passou de uma para quatro funcionárias, além da contratação iminente de uma gerente .
Especializada em lembranças inspiradas na cultura amazônica — canecas com grafismos indígenas, velas de oriço da castanha, camisas com estampas do Círio de Nazaré —, Luciana relata que o espaço físico permitiu reduzir perdas de mercadoria e melhorar a exposição da marca, algo inviável no modelo puramente digital .
Outro caso é o de Luizeane Rocha, empreendedora de biocosméticos naturais à base de jambu, açaí e patchouli. Sua loja no Mercado de São Brás registrou aumento de quase 100% no lucro na primeira semana, superando todas as expectativas. Antes, ela participava de feiras — "saturadas", segundo sua avaliação — e enfrentava perdas de produtos no transporte. O espaço fixo no mercado revitalizado resolveu ambos os problemas .
A dimensão cultural e turística: mercados como ativos de city branding
A revitalização de mercados históricos não tem impacto apenas econômico. Ela ressignifica esses espaços como ativos de city branding e atrativos turísticos — um movimento observado em diversas cidades brasileiras nos últimos anos.
Em Belém, além do Mercado de São Brás, o Complexo Porto Futuro entregou o Armazém da Gastronomia, um polo que reúne cerca de 15 bares e restaurantes à beira da Baía do Guajará, a tempo da COP30 . O espaço integra museu, parque de bioeconomia e centro cultural, demonstrando como mercados podem ser âncoras de desenvolvimento territorial mais amplo.
No Rio de Janeiro, o Novo Mercado São José, em Laranjeiras, reabriu em setembro de 2025 após sete anos fechado. O espaço, patrimônio da cidade desde 1994, adotou modelo inspirado no Time Out Market, com curadoria de 15 marcas da cena gastronômica carioca e mesas compartilhadas .
Em Campinas, o Mercado Municipal recebeu R$ 8,5 milhões em reformas e inaugurou mezanino de 450 metros quadrados com três novas operações gastronômicas, após 117 anos de história .
Em São Paulo, o Mané Mercado — sucesso em Brasília — desembarcou em dezembro de 2025 no Shopping West Plaza, com investimento de R$ 20 milhões e curadoria dos chefs Gil Guimarães e Leonardo Recalde, reunindo nove operações gastronômicas e quatro bares temáticos .
Esses casos não são exceções. Eles fazem parte de uma tendência nacional de revalorização dos mercados públicos como espaços de sociabilidade, consumo qualificado e identidade territorial — algo que já ocorria em capitais europeias e norte-americanas há décadas e que agora encontra solo fértil no Brasil .
O papel da governança qualificada: do controle à cocriação
O que explica o sucesso dessas experiências? A literatura em gestão pública e os relatos dos envolvidos apontam para um fator comum: a mudança no modelo de governança.
No modelo tradicional — ainda predominante em muitos municípios —, a relação entre poder público e permissionários de mercados é marcada por desconfiança, burocracia e ausência de planejamento. A prefeitura fiscaliza (mal), cobra taxas (quando lembra) e raramente investe em capacitação, infraestrutura ou promoção.
No modelo que emerge das experiências bem-sucedidas, a governança é participativa e orientada a resultados. Os permissionários são tratados como parceiros estratégicos, não como problemas a serem gerenciados. A curadoria de negócios — como ocorreu em Belém e no Rio de Janeiro — garante diversidade e qualidade. A capacitação — como a oferecida pelo Sebrae aos empreendedores do Mercado de São Brás — reduz a assimetria de informações e aumenta a competitividade dos pequenos negócios .
O secretário Daniel Fortunato, ao descrever o Mercado do Povo, explicita essa mudança de paradigma: "Faremos isso ajudando quem mais precisa e melhorando a qualidade de vida por meio da venda de seus produtos em um local digno. Esse mercado deixará sua marca na atual gestão" .
A fala do secretário ecoa um princípio fundamental da nova governança: o mercado não é um fim em si mesmo, mas um meio para a inclusão produtiva e a redução das desigualdades.
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A conexão com as Rotas de Integração Nacional e a economia territorial
Os mercados populares não existem no vácuo. Eles são pontos de convergência de cadeias produtivas regionais que se estendem por dezenas ou centenas de quilômetros, conectando agricultores familiares, cooperativas, pequenos agroindustriais e consumidores finais.
A Estratégia Rotas de Integração Nacional, coordenada pelo MIDR, reconhece essa dimensão territorial. Em 2025, a estratégia foi ampliada com a incorporação da Rota da Integração Comercial e passou a abranger 13 rotas produtivas e 79 polos, com missões técnicas e comerciais realizadas na Espanha, Portugal, Itália, Eslovênia e Egito, incluindo a participação na feira Food Africa 2025 .
Essas rotas transformam políticas públicas em redes vivas de cooperação, aproximando produtores, cooperativas, centros de pesquisa e compradores. Os mercados populares revitalizados funcionam como vitrines e terminais logísticos dessas rotas, conectando a produção regional ao consumo urbano de forma mais eficiente e com maior agregação de valor.
Desafios persistentes: escala, capilaridade e sustentabilidade
Apesar dos avanços, o Brasil ainda está longe de ter uma política nacional de mercados populares à altura de sua diversidade territorial e do potencial de inclusão produtiva desses espaços.
Desafio 1: Escala. O Programa Mercado do Povo prevê 136 unidades. O país tem 5.570 municípios. Mesmo priorizando os mais vulneráveis, a cobertura é limitada. A política precisa ser ampliada e incorporada como estratégia permanente, não como ação pontual de governo.
Desafio 2: Capilaridade. A maioria dos municípios brasileiros não tem sequer um mercado público estruturado. Pequenos produtores dependem de feiras livres improvisadas, muitas vezes em condições sanitárias precárias e com baixa capacidade de agregação de valor.
Desafio 3: Sustentabilidade da gestão. A revitalização da infraestrutura é o passo inicial. O desafio seguinte é garantir que os mercados se mantenham operacionais, competitivos e bem geridos ao longo do tempo — o que exige capacitação continuada dos permissionários, manutenção predial regular e adaptação a novos hábitos de consumo (delivery, e-commerce, experiência presencial).
Desafio 4: Inclusão produtiva substantiva. Não basta abrir espaço para pequenos empreendedores. É preciso garantir que eles tenham acesso a crédito, formalização, gestão qualificada e canais de comercialização complementares (como plataformas digitais). O caso do Mercado de São Brás mostra que a capacitação pelo Sebrae foi decisiva para o sucesso dos novos permissionários — mas essa ainda é uma exceção, não a regra .
Ponto de Controvérsia: gentrificação versus inclusão autêntica
Há um debate substantivo sobre os efeitos da revitalização de mercados populares em áreas centrais ou históricas.
De um lado, defensores da política argumentam que a requalificação atrai investimento privado, valoriza o patrimônio histórico, gera empregos e amplia a base de contribuintes do município. O aumento do fluxo turístico e do consumo qualificado beneficia não apenas os permissionários do mercado, mas todo o entorno.
De outro lado, críticos alertam para o risco de gentrificação: a valorização imobiliária e a mudança no perfil de consumo podem expulsar os pequenos empreendedores originais — aqueles que mantinham o mercado vivo antes da revitalização —, substituindo-os por marcas de maior poder econômico, mas desenraizadas da identidade local.
A evidência empírica disponível, a partir das experiências nacionais e internacionais, sugere que o resultado depende do desenho da governança. Modelos participativos — com conselhos gestores mistos, políticas de subsídio a permissionários tradicionais e controle sobre aluguéis — tendem a mitigar os efeitos perversos. Modelos puramente mercadológicos — nos quais o espaço é leiloado ao maior lance — tendem a aprofundar a desigualdade e a descaracterizar o território.
O caso do Mercado de São Brás, ainda recente, não permite conclusões definitivas. A presença de empreendedores como Luciana Tavares e Luizeane Rocha — que migraram do digital e das feiras para o mercado revitalizado — sugere inclusão, não exclusão. Mas será preciso monitorar a evolução dos aluguéis, a rotatividade dos permissionários e a manutenção da diversidade social e econômica ao longo do tempo.
Perspectivas futuras
A agenda dos mercados populares como ativos urbanos estratégicos está apenas começando a amadurecer no Brasil. O Programa Mercado do Povo, as revitalizações em Belém, Rio de Janeiro, Campinas e São Paulo, e o fortalecimento das Rotas de Integração Nacional são sinais inequívocos de que o país está no caminho certo.
O desafio dos próximos anos será institucionalizar essa agenda, transformando iniciativas piloto e políticas de governo em políticas de Estado — com continuidade independentemente do ciclo eleitoral, financiamento estável, governança participativa e capacidade técnica para monitorar e avaliar resultados.
Os mercados populares não são, e nunca foram, "problemas urbanos". São soluções territoriais para o desenvolvimento econômico inclusivo, a segurança alimentar, a geração de emprego e renda e o fortalecimento da identidade cultural. Reconhecê-los como tal é o primeiro passo para que cumpram seu potencial transformador.
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GLOSSÁRIO TÉCNICO
Governança qualificada: Modelo de gestão de mercados populares baseado em participação dos permissionários, curadoria de negócios, capacitação continuada e monitoramento de resultados, em oposição ao modelo puramente fiscalizatório.
Inclusão produtiva: Estratégia de desenvolvimento econômico que integra pequenos produtores, agricultores familiares e empreendedores populares a cadeias de valor formalizadas, com acesso a infraestrutura, crédito, capacitação e mercados.
Rotas de Integração Nacional: Estratégia do governo federal que organiza cadeias produtivas regionais (açaí, cacau, mel, pescado, etc.) em redes de cooperação, conectando produção, logística e comercialização.
Gentrificação: Processo de valorização imobiliária e transformação do perfil socioeconômico de uma área urbana revitalizada, que pode levar à expulsão de moradores e comerciantes originais de menor renda.
City branding: Conjunto estruturado de ações para construir percepção positiva de um território, atraindo talento, turismo e investimento; mercados revitalizados funcionam como ativos centrais dessa estratégia.






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